ENCARTE ESPECIAL DE DEZEMBRO DE 1997
O COMPANHEIRO INESQUECÍVEL
O período de Oficial da Resrva e Piloto de Linha Aérea visou, apenas, mostrar que o nosso irmão Reynaldo continua fiel a si mesmo.
Reconhecendo-se, contudo, que de maneira nenhuma a HOMENAGEM faz justiça ao grande SER HUMANO que ele é.
O 58-267, vindo de São Paulo, embora nascido carioca, apareceu em Barbacena e já foi adotado pelos veteranos, por sua descontração (um misto de folgado, ingênuo e de extraordinária esportiva).
Caberia, antes, uma descrição do porte do jovem calouro: comprido, magro, cabeça torta (segundo o próprio, a mamãe esqueceu de virare o neném por um bom tempo), olhinhos coladinhos ao nariz, os dentes separados, sendo três "fofos" pendurados numa prótese por ele batizada de "perereca", talvez porque vez por outra pulava longe (como certo dia, saltou no colo de uma "camofa" muito feia, justamente quando ele pensava em demovê-la de transitar pela calçada exclusiva das oças bonitas).
Não havia solução possível para o uniforme, pois a manga da camisa do 6º uniforme não alcançava os punhos e a calça era "pesca-siri". O bibico que lhe foi pago (injustiça!) era pequeno e ficava equilibrado no topo da "cuca".
Nesta Fase 1ª, destacamos dois episódios.
1º Episódio: Ele e os veteranos
2º Episódio: Ele e os instrutores de ordem unida
FASE 2ª - O Cadete-do-Ar
Felicíssimo passou por todos os crivos até "sagra-se" Oficial-Aviador. Enfrentou rigorosos exames de saúde e implacáveis instrutores de vôo.
FASE 3ª - O Tenente
Ao chegar em Natal como Aspirante, passou por um grande constrangimento. O engraxate do Cassino, ao identificar o seu nome inscrito na plaqueta - Felicíssimo - , teve um acesso de riso. O Feliz ficou muitíssimo aborrecido mas não deu cascudo no moleque. Optou por trocar o nome de guerra para Reynaldo.
FASE ANTEPENÚLTIMA - O Coronel
Passando pelos postos de Capitão, Major e Tenente-Coronel, podemos imaginar o que andou fazendo por aí, ou deixando de fazer, pois ele desapareceu do cenário. Mas como Coronel, servindo no DEPED - Departamento de Pesquisas e Desenvolvimento, notabilizou-se como "rebelde Irreverente". Ele falava pelos corredores (todos os dias):
- "Eu hoje não faço porra nenhuma; isso aqui é o DESPEDE", referindo-se à suposta situação de que os coronéis que servia no DEPED não logravam galgar ao generalato.
FASE PENÚLTIMA - O Oficial da Reserva
Quando passou para a reserva, Felicíssimo foi morar na terra da sua "patroa" - Salvador, BA. Por algum tempo, voltou a pilotar, deixando um grande vácuo no espaço aéreo brasileiro quando, definitivamente, botou o pijama.
Decidiu voltar a voar, agora como Piloto de Linha Aérea, na aviação comercial. Procurou o Ênio, aquele nosso veterano simpático e até hoje amigo do Reynaldo, solicitando indicação para integrar o quadro de pilotos de uma empresa aérea regional
1º Episódio: Um vôo perigoso - (salvo pelo gongo)
2º Episódio: "Vaaaiii vaaraar!!! - (outro vôo perigoso)
FASE ESPECIAL - A Família Feliz
Outro dia, o amigo Ênio, necessitando uma orientação sobre ar condicionado, recorreu ao Reynaldo. Este lhe indicou o Pedro, seu cunhado, mas deixou bem claro que não lhe deveria dizer que eram íntimos para merecer maior atenção. Assim, no contato com o Pedro, fez-se uma referência ao Reynaldo com a ressalva de que eram apenas conhecidos, ao que ele respondeu ao Ênio:
Falando sério, o Reynaldo é muito FELIZ. Com sua digníssima esposa, que ele carinhosamente chama de Gerente do Lar, possui três filhas bonitas e inteligentes. Vivem muito bem em Salvador, Patrimônio Cultural da Humanidade, com a proteção de todos os santos e orixás. E com a benção de Deus.
E sabemos que o nosso caríssimo irmão, por sua infinita bondade, já tem garantida sua entrada no Céu.
(a): Um milhão de amigos"
Colocaram-lhe um prefixo sem título e sem lógica, que se resumia às seguintes perguntas:
- "Você é feliz, Bicho?
Resposta:
- "Felicíssimo!"
- "Porquê?"
- "Porque sou alto, picão, inteligente, pilotaço... Cadete da Aeronáutica!".
- "Olha o alinhamento! - Olha a cadência!"
Repetidas vezes, os instrutores gritavam com ele. Depois resolveram dar-lhe uma atenção especial e carinhosa para ver se "passavam um garbo" àquele jovem. Colocavam sargentos monitores a "monitorá-lo" o tempo todo. Mas... a solução também era impossível. Ganhou o apelido de "Bonecão", por aquele jeito desconjuntado de marchar.
Mas ele era singular. No 3º Ano Av, enquanto alguns ilustrs colegas jogavam pôquer no "buraco-quente", felicíssimo ia buscar lanche (ceia) para aqueles dedicados atletas do pano verde. Em vez de requisitar um "bicho", ia para o alojamento com as mãos e as axilas ocupadas, levando uns quatro copos de Toddy ou mate gelado e alguns sanduíches. E ainda queria convencer outros veteraníssimos de praticar aquela ação social "meritória".
O Ten Reynaldo, após a conclusão do curso em Natal, foi classificado na Base Aérea de Salvador. Ficou querido dos Sargentos de todas as Bases Aéreas do nosso País. Explica-se, o Tem Reynaldo, entre outras funções que lhe foram atribuídas, era chefe da Seção de Pára-quedas. Quando os sarentos abordavam os pilotos da Base Aérea ou em trânsito na tentativa de uma viagem, recebiam orientação de que poderiam ser transportados, desde que equipados com um pára-quedas. Felicíssimo, digo, Tem Reynaldo, atendia a todos. Muitos nem assinavam cautela. Chegou um dia em que os pilotos dos Esquadrões da Base de Salvador não podiam mais voar por falta de pára-quedas. Dizem que seu substituto na Seção jamais conseguiu recuperar os pára-quedas sem cautela.
Mas até que ele fazia (todos os dias): jogos e masis jogos de loteria. Também apreciava falar mal de seu Diretor-Geral, em quem colocou um apelido.
No dia em que o "4 Estrelas"ouviu o Feliz referir-se à sua pessoa pelo apelido ( não publicável), juntou tuudo num belo dossiê e o recomendou para um Conselho - o de Justificação. E o Felicíssimo só não foi demitido porque no Conselho havia Oficiais muito generosos, como ele.
Consegiu convencer os diretores da Empresa, que caíram na asneira de o contratar como Piloto de Linha Aérea. Ficou logo conhecido nomeio e festejado pela "co-pilotada". Foram aí acumuladas estórias e "causos" que, se resgatados, dariam para escrever um livro.
Andava sempre com um contracheque da Aeronáutica no bolso para mostrar aos co-pilotos, não sabemos se para causar constrangimento pela divulgação da "merreca" que ganhávamos, ou se para humilhá-los, ou pelas duas razões, ou, ainda, por simples loucura. Arrematava, para "arraso" geral:
- "Não faço questão de salário. Se quiserem, vôo só pela diária".
Imaginem a revolta do "paisanal". Os episódios seguintes foram recolhidos por um ala seu na empresa onde trabalhava.
Num vôo de Salvador para Vitória da Conquista, região montanhosa do interior da Bahia, depois das tentativas de aproximação por instrumentos oficiais, com "forçadas de barra" próximas do suicídio, os pilots resolveram apelar para as secidas extra-oficiais, também sem sucesso e com riscos ainda maiores. Num lampejo de sensatez, decidiu nosso intrépido Comandante alternar Ilhéus. Dirigindo-se ao co-piloto:
- "Aviador, proa para Ilhéus!"
O "copila"
- "OK, Capitão, 270 graus!"
Aproando pois, erradamente 270 º, ao invés de 90º , lá se foram para os confins do interior baiano. O equívoco só foi percebido porque, não avistando o mar em 40 minutos, até uma anta desconfiaria. A esta altura o combustível mal dava para retornar a Conquista e fazer, no máximo, dois procedimentos de pouso.
No primeiro não deu. No segundo, apelaram para um procedimento alternativo não homologado, "bolado" por um piloto altamente suspeito que atendia pela alcunha de "Zé do Caixão". O fato é que nesse procedimento residia a última chance. Mas como o Todo-Poderoso permitiu que o desventurado Comandante avistasse, no último instante, o clarão intermitente do farol rotativo de Vitória da Conquista, desesperadamente enfiou o "nariz" para baixo e, por não Ter colidido com nenhuma elevação, acabou pousando.
Ainda fez uma letra com o Governador da Bahia, Nilo Coelho, que aguardava ansioso para ser transportado com segurança para a Capital:
- "Pousamos nessas condições em homenagem ao senhor...", e foi até o bar onde comeu um bauru acompanhado por uma Coca-Cola com a maior naturalidade do mundo.
O" copila" pediu segredo do "vacilo assassino", no que foi atendido até a presente data.
Voando na rota Salvador/Bom Jesus da Lapa/Barreiras/Brasília, na posição de co-piloto encontrava-se o Afrânio, também comandante. Ao se aproximarem de Lapa já "pintava merda". Na entrada do circuito para pouso, o Afrânio já alertava:
- "Reynaldo, está alto!"
- "Não esquenta, Aviador", respodia ele.
Ao cruzarem a cabeceira da pista estavam na estratosfera, e o Afrânio, quase em desespero:
- "Reeeyyyynaaaldoooo!!! Está aaaaltooooo!!!"
Mas o Reynaldo, numa daquelas "brilhantes" decisões , jogou o avião no chão após a metade da pista, a mil por hora, e tome reverso, freio e o escambau. Ainda no meio do sufoco empoeirado, virou para trás, soltou os comandos, e com as duas mãozinhas balançando gritou para os passageiros:
- "VAAIII VAARAAAR!!!"
Varou a pista, entrou no terreno arenoso, os hélices cortando as vassourinhas, muita poeira e muito trabalho para o anjo da guarda, que conseguiu parar a aeronave antes de bater na cerca limite do campo.
Já taxiando, mas ainda às cegas pela poeira levantada, voltou-se nosso "incansável" Comandante para os passageiros, agora pelo alto-falante e, parafraseando Roberto Carlos, declarou:
- "Este é apenas o primeiro de uma série de pousos... Novas e maiores emoções teremos..."
Depois disso, ficaram proibidas de tocarem nos aviões da Empresa, as músicas Emoções e o Frevo da Vassourinha.
"Ainda bem, ainda bem... Esse camarada é um perigo!!! Sabe como eu o vejo?", perguntou sem esperar resposta; - "Sempre carregado de livros!"
Ênio confirmou:
" É, ele já me contou... Além disso eu sei também que ele é chegado a toda a sorte de informação inútil."
- "É por isso...", interrompeu-o Pedro em alusão à citação. O Ênio continuou:
"Seu livro de cabeceira é o Anuário Estatístico do IBGE; ele o decora todo."
Prosseguindo no papo telefônico, o Ênio mencionou a opinião de um colega de que o Reynaldo não deveria procriar. Pedro discordou com veemência:
- "Não, não, as meninas são ótimas!"
Mas o Ênio retrucou:
- "Pedro, quem garante que um dos netinhos não vai puxar ao vovô?!"
"Puxa! Nem tinha pensado nisso! É mesmo!...", exclamou Pedro.
"Reynaldo, não fique transitando muito por aqui, pois isso vai causar uma úlcera nessa estátua!".
É uma unanimidade a consideração da família, não é mesmo? Mas podemos depreender que essa inflação de pedros na família, quando nada, deve ser uma conspiração procurando agradar o "Guardião Celeste" na tentativa de assegurar, apesar dos pesares, a entrada do reynaldo no reino do céu.
São coisas do Reynaldo Pinto Felicíssimo, a quem muito estimamos.
Você está lendo o BOLETIM TURMA 57-BQ de dezembro de 1997.
