ANO II - NÚMERO 7 - JUNHO/JULHO DE 1997
BOLETIM INFORMATIVO DA TURMA 57-BQ/ASPIRANTES 62
FOI O CAMARÃO?Maio de 1957, época do aniversário da EPCAR (meu também), e do nosso primeiríssimo licenciamento. Alguns alunos, muito poucos, estavam no vestiário experimentando a Baratéia(*), recém entregue pelo alfaiate Amaral (quem não se lembra daquela figura lendária?). Outros, menos afortunados, porém altamente vibradores, também estavam experimentando as fardas que haviam alugado; sim, a-lu-ga-do (o Sucupira é réu confesso) dos veteranos, para dar um "GP" (**), em suas cidades. Como eu ainda não havia memorizado o rosto de todos os companheiros, mesmo porque havia chegado a BQ (***) - por problemas burocráticos - com alguns dias de atraso, ao contemplar um "colega" fardado, examinando-se no espelho, e como a tal da farda, visivelmente, não era nova, conclui que se tratava de um dos "locatários de Baratéia". Dei-lhe, então, um amistoso, porém bem sonoro tapão nas costas e soltei: "Aí, hem, meu chapa, pronto prá dar o seu "gepezinho" prá namorada com farda alugada?" Ocorre que o "colega" era um Cadete dos Afonsos, que fazia parte da delegação que viera participar dos festejos de aniversário da Escola. O sujeito, após o susto, encarou-me entre incrédulo, pasmado e boquiaberto. Notei a imediata mudança de coloração do rosto dele: do rubro para o azul, seguindo-se para o roxo. Mal pôde balbuciar: "Some daquiiiii, bicho FDP!" Entre o "me", do so-me e o "da", de da-qui, eu já estava bem próximo do Pátio da Bandeira - onde posteriormente foi desenhada aquela asinha no chão, na qual, quem pisasse não solaria (****). Nunca pude precisar quem havia sido o indigitado; mesmo porque não houve, realmente, tempo pra guardar sua fisionomia. Nem, evidentemente, quando chegamos aos Afonsos, por prudência, eu procurei saber. Mas algo me diz que era o Cadete Miranda (apelidado Camarão), um dos mais furiosos terrores da bicharada. Acho que nunca vou saber...
57-171, Schneider.
NOTAS:
(*) Nome popular do uniforme de passeio, que tem a cor azul-baratéia.
(**) Golpe de Publicidade, nome dado à exibição do pessoal para impressionar terceiros e terceiras.
(***) Prefixo do rádio-farol aeronáutico de Barbacena, que originou o apelido da cidade.
(****) Não seria aprovado em seu primeiro vôo desacompanhado, sendo desligado da Escola.
REVISTA DO RECOLHERO Amorim insiste em que tem muita gente de 57 faltando à Revista do Recolher. Roga-se que se apresentem os faltosos.
TRÉPLICAA resposta enviada pelo Luzardo, com relação ao episódio do "cadete" que engoliu uma carta, quando nossa Turma estava em BQ, foi muito bem elaborada; lírica e eivada de espírito esportivo, qualidades típicas de um integrante da Turma Quase Perfeita, emolduradas pela elegância própria de um brilhante oficial "caçador". Em razão do alegado e, baseado no princípio da verdade real, ratifico a informação de que a carta enviada a um cadete da Turma 57 existiu, e não há igualmente dúvidas de que alguém engoliu, literalmente, a missiva. O que é ainda indubitável é a lembrança da minha mãe, inobstante sua idade avançada, devendo ser ressaltado que ela sempre mencionou com carinho o Luzardo, como o protagonista desse episódio. A todos que lêem o Con*dor, lanço um desafio, invocando o falecido código de honra, que ainda vive dentro de cada um de nós: que se apresente o "engolidor da maledeta missiva", ou que apareça alguma testemunha apontando o tal protagonista, com o fim último de livrar o Luzardo dessa pecha. Do contrário, corremos o risco de deixar registrado, nos anais da Turma, essa terrível dúvida: foi ou não foi o Marola?
57-159, Bernardini
O CAMPO DOS AFONSOS
(57-40, João Carlos)"Não deixeis apagar de vossa memória a nossa Escola, o seu velho, tradicional e já lendário Campo dos Afonsos, onde tanto sacrifício e tan-to heroísmo tem sido imolado em holocausto ao mais belo e empolgante de todos os ideais - A Aviação." Brigadeiro-do-Ar Henrique Raimundo D. Fontenelle.
Esta mensagem está inscrita na capa da Revista Esquadrilha Nº 43, editada em dezembro de 1962. Suas páginas são uma síntese de sonhos, esperanças, lutas e vitórias. Elas estão impregnadas do Espírito dos Afonsos, aquele espírito que traduz vibração e glória, e que nos foi deixado pelo VELHO E BOM COMANDANTE FONTENELLE. Aos Companheiros da Turma 57-BQ/Aspirantes 62 relembramos algumas páginas da nossa Esquadrilha. Seria possível fazer poesia sobre a Ponte de Cascadura? Vejam, a seguir, a amizade a ela dedicada pelo Ornelas, 58-266.
VELHA PONTE
Desço do trem e caminho...
Subo a escada já gasta pelo tempo,
E atravesso a ponte...
É madrugada e a ponte está só...
Só eu na velha ponte caminho.
E caminhando vou pensando:
Quantas vezes já não me viste passar!
Quanta esperança já não viste em mim!
Ao te atravessar alegre,
ansioso, em busca de festas...
Bastava que as luzes da cidade se acendessem,
E logo eu aparecia.
E tu sempre me esperavas, amiga fiel.
Contudo, egoísta, nunca parei um momento sequer.
E eu seguia...
Mas quando pela madrugada,
Cambaleante, fatigado, voltava,
Talvez sorrisses em teu silêncio,
Vendo o enfado, o desengano meu,
Da busca vã de alegria, de felicidade.
Onde nunca, nunca encontrava.
E os anos se passavam...
E como em desvario, eu prosseguia...
E em teu silêncio sorrias com ironia...
Contudo, esta noite, vim a compreender-te.
Nesta madrugada fria e silenciosa,
Ao sentir mais um desengano...
Como fui tolo, amiga!
Mas, crê-me, não mais me verás
Atravessar-te pelas madrugadas...
Não ! Nunca mais!
Pois esta noite eu ouvi tua voz...
E no futuro, quando a alegria estiver de volta,
Quando em meu olhar já não houver enfado,
Ao atravessar-te, eu o farei sorrindo,
Pois sei que também estarás sorrindo para mim,
Em teu silêncio de pedra...58-266, Ornelas.
AH, SANTA!!!O gerente do banco onde a Turma tem a famosa conta conjunta em nome dos nossos tesoureiros telefonou para o Zé Nelson, avisando: "Há muitos depósitos na sua conta, Coronel, mas chegam todos em nome da sua esposa!" Pode???
ASPIRANTADO
CAMPO DOS AFONSOS, 21 DE DEZEMBRO
9 HORAS DA MANHÃ.A banda militar executa a marcha batida; e, um a um, os Aspirantes depositam seus velhos espadins na longa mesa azul, na manhã azul... E de uma palmeira próxima uma rolinha contempla pensativa todo este aparato e parece filosofar sobre os homens e seus estranhos costumes. Na verdade ela já vira outras festas por este sítio, mas esta era mais colorida, mais linda... (pensa a rolinha).Sim! Hoje é ASPIRANTADO, cara rolinha. Daí a razão de tudo É como diz um grande poeta: "Parece que neste dia ninguém chora: só se fala em paz, em sonho, em esperança". E a nossa Escola, quase sempre, tão quieta e mansa, hoje se alvoroça e se engalana para se despedir dos filhos que partem. E da palmeira a rolinha admira as fardas de gala, os risos, as espadas refletindo o sol, as toaletes coloridas, a música, as palmas, e fica a pensar: Voar ou não voar... Mas deixemos de lado a rolinha filósofa, voltemos nossos olhos para a formatura... A banda está silenciosa agora e os espadins jazem abandonados por seus antigos donos... Alguns estão já bem velhos, outros mais conservados e brilhantes...Interessante! Quantos aspirantes que ali estão, não terão sentido pesar, ao devolver seus espadins, antigos e bons companheiros durante toda a vida de cadete!.... E talvez, quem sabe, não tenham derramado algumas lágrimas furtivas - pois os soldados também choram... E quantos não estarão pensando no primeiro dia em que aqui chegaram... Vinham tímidos, contraídos, inseguros no futuro, saudosos do lar, da mãe, e no entanto, muitos daqueles hoje ali se encontram - são aspirantes... Mas contemplemos agora os rostos de alguns; procuremos desvendar o que lhes vai pela mente... Vejamos em que pensa aquele ali adiante: "Aspirante! Veja só rapaz, aonde chegou você que não queria nada, e no entanto saiu oficial... E a vida de casado, será difícil? A minha noiva está mesmo linda com aquele vestido rosa, e como parece gostar de mim!... Talvez, ano que vem nos casemos e então teremos filhos, um lar..." Deixemos porém a mente do felizardo. Observemos a assistência, os parentes... Ali uma mãe exclama: "Vejam, é o meu filho! Aquele ali, vejam! Como está garboso o meu filhinho!" Aqui um velho pai não contém as lágrimas... Sim! Está orgulhoso de alguém... Subitamente um conjunto de vozes se eleva em uníssono e os aspirantes prestam o juramento de fidelidade à Pátria: "Juramos que ..." Agora entregam-se as espadas. Só se vêem rostos risonhos, e a lágrima se mistura ao riso, e o abraço se transforma em beijo, e os fotógrafos gravam estes poucos momentos de felicidade com aquela agilidade característica... O oficial comandante pede aos familiares que se retirem e, pouco a pouco, o que era apenas um amontoado de seres humanos se transforma numa disciplinada escola. A banda eleva sua música e os aspirantes se retiram cingindo, orgulhosos, suas espadas - são oficiais das Forças Armadas. O silêncio se faz, e então o clarim dá início ao desfile dos cadetes... E os Cadetes desfilam garbosos neste dia, pois eles estão orgulhosos dos seus irmãos mais velhos... E o desfile passa e no céu os aviões fazem vibrar o coração de todos. O oficial comanda: "Aspirantes! Fora de forma!" E aqueles jovens, há pouco tão rígidos e disciplinados pulam e se abraçam, congratulando-se pelas vitórias mútuas... A rolinha voa e desaparece na manhã azul...
2 HORAS DA TARDE.
A Escola branca, na imensidão verde, dorme placidamente, parecendo cansada... Sim! Triste, pois seus filhos partiram... E por isso a velha matrona agora dorme, após mais uma missão cumprida, reunindo forças para o próximo ano, quando novos filhos virão... O sol de duas horas, claro e brilhante, reflete-se nas paredes brancas dos prédios e o silêncio cai sobre o Campo dos Afonsos... A Escola dorme... A festa se transferiu agora para os lares, pois é certo que neste momento, no lar de cada aspirante, haja sorrisos e alegrias, esperanças e sonhos... Sim! Hoje parece que ninguém chora: só se fala em paz, em sonho, em esperança... Pois embora amanhã já não seja dia de festa, embora amanhã apareçam novas lutas e obstáculos, não há razão para lágrimas hoje... Hoje é um dia de luz ...É ASPIRANTADO...
Reportagem do Cad Int Ornelas, Al. 58-266, sobre o Aspirantado.
O BIFE DE OUROLogo no início de 1957, na hora do almoço, tivemos eu e o João, 57-25, o prazer de nos sentarmos, à mesa redonda do rancho, entre três distintos e famosos alunos veteranos, como era de praxe. Eram eles o Moreira Lima, vulgo Macaco, o Cabral, do Violino, e outro, de pouca fama e nenhuma importância. A certa altura do almoço o Macaco cochichou com o taifeiro e este lhe trouxe um bife sangrando, coisa da melhor qualidade. Com certa displicência, o Macaco passou o seu prato para o Joãozinho, bicho-escravo, cortar-lhe o apetitoso bife; e continuou conversando com o veterano a seu lado. O 57-25 não entendeu a "mensagem" e degustou, com prazer e sem qualquer cerimônia, o sagrado bife do ilustre veterano. O distraído Macaco foi alertado pelo Cabral que o pitéu sumira. "Cadê o meu bife?" perguntou pro João. "O senhor não me deu para comê-lo? Comi!" Para azar do João, naquele dia fora servido, na salada, azeitonas e os muitos caroços chupados, por todos à mesa, foram parar no estômago do macérrimo João. Dava para notar, pelo lado externo do corpo dele, o volume enfileirado dos caroços de azeitona. E mais, como complemento, teve que desembolsar uma importância correspondente a 10% do soldo da época, a título de indenização.
Com mil macacos! Nós sentimos saudade daquele tempo!57-55, Amorim
ANIVERSARIANTESNasceram em junho:
Dia 5 Bhering, 57-64.
Dia 7 Amado, 57-161.
Dia 24 João, 57-25.
Dia 25 Noleto, 56-148.
Dia 27 Moraes Rego, 57-51.
Dia 29 Fullmann, 57-141.
Dia 29 Real, 57-60.Chegaram em julho: Dia 2 Mello, 57-41.
Dia 9 Schubnell, 59-357
. Dia 11 Pimenta, 57-219.
Dia 19 Luzardo, 57-86.
Dia 20 Campos, 57-24.
Dia 20 Leandro, 57-37.
Dia 23 Gomes Pinto, 57-97.
Dia 25 José Nelson, 56-86.
Dia 28 Montéro, 57-44.
Dia 28 Conde, 57-359.
INTERNAUTAS DA TURMACadastrem-se na página da FAB: http://www.netvale.com.br/~davi/fab_mail.htm
57-12, Manoel Carlos.
Você está lendo O CON*DOR de junho/julho de 1997.