O CON*DOR

ANO II - NÚMERO 10 - NOV/97
BOLETIM INFORMATIVO DA TURMA 57-BQ/ASPIRANTES 62.



O CAPA BRANCA

Rio, fevereiro de 59: 40 graus. Tínhamos combinado, eu e o Vidal, chegarmos juntos à Escola de Aeronáutica para cursarmos o 3º ano de BQ. Resolvemos adentrar (como diz Zé Nelson) o lendário Campo dos Afonsos, um dia antes daquele marcado, na vã suposição de escaparmos ao assédio imediato do veteranal. O meu bom amigo era conhecido pelos companheiros mais chegados e pela bicharada de BQ por sua autodenominação "DOM VIDAL DA CAPA BRANCA". Ninguém sabe de onde ele tirou esse título pomposo e estapafúrdio. Sendo morador da Ilha do Governador na época, por razões que a razão desconhece, o Vidal gostava de participar do "retiro" dos aratacas e sulistas, aqueles bravos laranjeiras que, longe de suas cidades, vagavam pela escola, carregando as suas saudades. Tínhamos então, sempre certa, a companhia do Vidal durante os licenciamentos mais longos e boa parte das férias, desde Barbacena. Nessas ocasiões, lá em BQ, tratávamos a bicharada com sadias demonstrações de afeto na convivência diária. Eram cangurus, flexões, calômetros e tudo o mais que nossa generosa imaginação inventasse. Ao término de cada sessão, o Vidal fazia uma reverência aos moribundos bichanos, dizendo solene: "COM OS CUMPRIMENTOS DE DOM VIDAL DA CAPA BRANCA..." E assim, com toda essa nobreza fomos para os Afonsos eu, com o meu malão de couro tipo baú, e o Vidal, com a sua maletinha carioca, ambos com os nossos impecáveis e grossíssimos uniformes azul baratéia. Cruzamos o pórtico do Corpo de Cadetes vibrando e compenetrados, mas também apreensivos...Não demorou nadica de nada e ouviram-se gritos calorosos: Bichos à Vista! Seguiu-se uma interminável sessão de flexões, cangurus e polichinelos. Depois de algum tempo, que pareceram horas, despencamos no chão, completamente exaustos, sob um sol carioca e abrasador de meio-dia. Olhando para o Vidal, ainda deitado no chão, exangue, eu seria capaz de jurar que a sua encharcada túnica azul baratéia havia virado uma resplandecente capa branca...

[ 57-16, Mossry ]

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UM LORD INGLÊS

No Campo dos Afonsos, em 1959, quando éramos "alunos da EPCAr" e estávamos começando a voar o Fokker T-21, tudo podia acontecer, e acontecia... Para manter a reta na decolagem era indispensável escolher um ponto fixo na cabeceira oposta da pista. Quando usávamos a pista 17, todos escolhiam a casa da namorada de um colega nosso. Não sei como tantos sabiam onde ela morava... O nome dele não digo, apenas que começa com P e termina com A. Um outro companheiro quis ser diferente e escolheu um ponto mais visível, todo amarelo, era um... LOTAÇÃO EM MOVIMENTO! Um dos nossos instrutores de vôo era o saudoso TEN BARRY ANDREW TREVOR HANCOCK, um dos maiores gozadores que eu já conheci, apesar do seu nome de nobre inglês.
Como todos lembram, os nossos vôos de instrução se resumiam a decolar dos Afonsos, ir para a área de instrução em Nova Iguaçu e voltar para a Escola, nos Afonsos. Nunca, ou quase nunca, ocorria qualquer variação. Qualquer quebra da rotina aviatória era uma aventura extraordinária que, depois, seria objeto de intermináveis papos de alojamento. Um dia, o HANCOCK perguntou para a futura "vítima", um de nossos colegas:
"Queres ir até o Calabouço (Aeroporto Santos Dumont), de PT-19, comigo ?"
O infeliz pensou, pensou e, 1/100 de segundo depois, disse que queria. O algoz então deu-lhe as seguintes instruções:
"Logo após o almoço, leva dois pára-quedas e quatro almofadas para o avião número tal; mas tem de ser "na moita" porque, como tu sabes, cadete não pode participar de vôo que não seja de instrução. Deves dar a volta pelo "cemitério de aviões" para não despertar suspeitas. Após equipar o avião, esconde-te na nacele traseira, agachado, e espera a minha chegada. Não contes nada para ninguém!"
A essa altura, o convidado nem almoçou, tal era a sua emoção. Brigou com o soldado que fornecia os equipamentos até conseguir levar, sem dar muita explicação, dois pesadíssimos pára-quedas e quatro inseguráveis almofadas. Nem é preciso dizer que o avião era o último dos últimos, da última fileira, a muitas centenas de metros de distância. A temperatura, no momento, não chegava a 50ºC, só a uns 45ºC. E, assim, o nosso herói dando uma volta ainda maior (era esperto e estava "na moita") chegou até o avião, equipou-o e acocorou-se na nacele traseira, onde permaneceu por mais de uma hora, suando tudo o que tinha direito, e o que não tinha. De repente, ouviu vozes que se aproximavam. Uma delas era a do Hancock, que dizia a outros instrutores:
"Sabem, ultimamente tenho observado o aluno Fulano que está tendo um comportamento muito estranho. Querem ver?"
E subiram eles nas asas do avião de onde ficaram olhando, por alguns instantes, para o infeliz acocorado. Depois se afastaram comentando:
"É. Muito estranho mesmo. Deve ser um caso para o Lobão ..."
[ 57-171 Schneider ]

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VISITA MUITO ESPERADA

Há um bravo na nossa querida Turma Quase Perfeita; há um guerreiro vencedor de muitos obstáculos; há um valente que merece toda a nossa admiração, ele é o 57-56, Rocha. Estamos aguardando a visita dele e ansiosos para abraçá-lo. Venha!

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CARTAS

De Belo Horizonte.
(...) É bom perceber que todos nós aprendemos com as dores e decepções que a vida sempre oferece, e que, apesar de tudo, estamos vivos e felizes - pois é bom viver e conviver.
[ 58-266,Ornelas ].

De Maceió.
(...) O que vocês estão fazendo NÃO É SAUDOSISMO! É vida! É manter a máxima de que a amizade não se esvai com o tempo. Ela só precisa ser levemente remexida para acordar como uma flor de primavera: cheia de vida e de amor renovado.
[ 57-48, Jair ].

De Porto Alegre.
Na última correspondência que enviei relatei duas "estórias": uma sobre o aluguel da baratéia, em BQ, e outra sobre o "golpe" que, como bichos, em 59, nos Afonsos, o Lilico, eu e outros estávamos dando... A primeira foi publicada, a última não...
[ 57-171, Schneider ].

Resposta da Redação: Fica frio que a segunda estória vai ser publicada.

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NÓS E ELES

Em uma das primeiras mensagens enviadas, afirmamos que nada temos contra qualquer instituição, mas que a TURMA QUASE PERFEITA jamais se transformaria em "confraria", "associação", ou coisa parecida. Ela deveria ser e permanecer idêntica a si mesma, mantendo seus ideais de amizade, fraternidade e companheirismo. A Comissão está convencida, e a maioria dos companheiros também, de que nós temos um comportamento singular e uma identidade própria, que dificilmente se enquadrariam nos estatutos de qualquer outra sociedade.

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ASPIRANTADO

Vamos comemorar 35 anos de Aspirantado. A reunião de fim de ano será na antiga Escola de Aeronáutica (hoje UNIFA), oportunidade em que reviveremos o nosso Aspirantado, ocorrido em 21 de dezembro de 1992. Por razões de ordem administrativa e proximidade do Natal, não faremos o nosso encontro no dia 21. A data possível é 13 de dezembro, sábado. A programação será divulgada em breve.

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NOBREZA PURA O Manoel Carlos, 57-12, esteve com o Príncipe Andrew no jantar de gala que encerrou a "Air Tattoo-97" em Fairford, na Inglaterra. O Príncipe encantou-se com a delegação brasileira que o MC chefiou, mas esqueceu-se de perguntar pelo Gatti. A Rainha jamais cometeria essa gafe.

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COMPANHEIROS INESQUECÍVEIS

Muitos fatos pitorescos envolvendo integrantes da Turma são rememorados no Con*dor. Não raro alguns companheiros ficam em evidência, o que nos inspirou a criar este espaço. Não será assinado por ninguém, pois se construirá com estórias contadas, aqui e ali, por quem delas participou ou teve notícia, através de "fontes fidedignas". A matéria será submetida ao "homenageado", cabendo a ele liberá-la. Vamos estrear com alguém muito especial... Para contarmos as singulares estórias protagonizadas por essa figura ímpar, o espaço do Con*dor é pequeno. Vamos inovar criando um ENCARTE. Como tudo na Turma prima pela originalidade, o ENCARTE poderá vir a ser maior do que o Con*dor; ficaria assim um "encarte solto". Poderá até acontecer um ENCARTE com quatro páginas; e aí o encartado seria o Con*dor. Esta explicação parece coisa de bicho querendo enrolar veterano. Esperamos que gostem. AGUARDEM!

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ANIVERSARIANTES

Parabéns aos de novembro:
Dia 11 Gatti, 57-91
Dia 13 Magrinelli, 57-59
Dia 17 Rocha, 57-56
Dia 22 Bui, 57-144
Dia 23 Nascimento, Cad. 59-23
Dia 24 Cerejo, 58-273
Dia 26 Eduardo, 57-32
Dia 27 Drummond, 57-163
Dia 27 Mossry, 57-16
Dia 27 Moraes Rego, 57-51
Dia 28 Fernando, 57-84
Dia 28 Gil, 57-148

Parabéns aos de dezembro:
Dia 4 Eudo, 57-53
Dia 7 Seixas, 57-54
Dia 8 Bruder, 57-30
Dia 10 Marées, 57-118
Dia 13 Lailo, 58-271
Dia 16 Pontes, 57-09
Dia 19 Duque, 57-137
Dia 21 Danilo, Cad. 60-124
Dia 21 Cleber, 57-124
Dia 24 Bezerra, 57-122
Dia 24 Felicíssimo, 58-267
Dia 24 Revoredo, 59-355
Dia 29 Brito, 57-46

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CHEFE É CHEFE

João Carlos, o nosso 57-40, continua "pilotando" a Comissão com entusiasmo. Às vezes nós, pobres mortais, não conseguimos acompanhá-lo, e por isso o deixamos estressado. Ô chefe, tenha paciência conosco...

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TIPOS & SITUAÇÕES

Existia uma rotina na EPCAr que ocorria na 2ª quinzena de fevereiro, da qual, pelo fato de ser um período de dúvidas e incertezas, tentávamos nos livrar a qualquer custo: a terrível 2a época. A memória reluta em arquivá-la com detalhes, mas fica o registro. Somente aqueles que como eu, repetiram o ano letivo (ou quase), lembrar-se-ão - paradoxalmente com saudade e nostalgia - de como foram esses dias para nós. Os "CDF's" nem imaginam que tal rotina existia. Ficar em Química ou Matemática era uma verdadeira roleta russa (Anastácio & Clodô+Borato/Cruz Machado).
Em 58 havia um oficial Av/Engº, vindo do ITA, que queria, a todo custo, que nos equiparássemos em conhecimento aos alunos de lá - o Cap Denair. O resultado de uma dessas provas de Química foi catastrófico: o PH da solução deu 8, lembram-se?. Chegávamos à escola com antecedência, para colocar a matéria em dia e trocar ajuda com os colegas, discutir os pontos onde estivéssemos mais fracos ou mais fortes, nessa ou naquela matéria. A solidariedade campeava entre nós. Era tempo de suplício, às vezes só amenizado pela presença e pelo contato com alguns veteranos super-bacanas (?) dos Afonsos, que, pelo fato de serem "laranjeiras" no Rio, ou apaixonados por frio, vinham, nas férias, para BQ. Alguns deles já haviam estado em situação idêntica e nos orientavam: "olha, tal professor gosta de pedir este ou aquele assunto da matéria tal..." Quanto vale a experiência! Duas figuras queridas e inesquecíveis, daquele tipo especial de veterano, estarão sempre em minhas lembranças: o Herbstricht e o Corisco. Passado o pesadelo da reprovação, vinha a alegria da comemoração no Bar do Bruno (lá podíamos pendurar a conta, pois nunca houve calote).
Dessas comemorações, a de que mais tenho saudade, foi uma serenata, que um "Romeu" dos Afonsos prestou à sua "Julieta" na cidade de Barbacena. Às 2 horas da manhã - um frio do cão - sob a janela da amada dele, eu e mais meia dúzia de calouros parti-cipando, gelados e desafinados do coral do voluntariado obrigatório... "Laura, ponha a rosa nos cabelos..."
[José Maria, 56-39]

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