QUEM TEM MEDO DA ZUZUCA?
Transcrito de O CON*DOR nº 3 - Ano III de MAIO/JUNHO de 1998.

Os BD (barbacenófilos doentes) estavam na sala de fotos históricas do Museu Municipal, no casarão da Praça Conde dos Prados (a Praça do Globo), quando exclamaram a uma só voz:
- MAS NÃO TEM A FOTO DA ZUZUCA!!!
Os queridos leitores devem lembrar-se dessa exclamação, já publicada no último O CON*DOR. O Professor Jorge admirou-se:
- Ué, vocês conhecem a Zuzuca? É minha amiga. Posso levá-los até ela.
Esperamos, também, que se lembrem dessa frase, principalmente do "ué". O professor deu um telefonema e avisou:
- Zuzuca, prepare-se que você vai receber visitas!

Saímos ansiosos pela porta do Casarão e fomos com o mestre em direção à Rua da Boa Morte. Lembram-se disso? Pois é, a Rua da Boa Morte agora é denominada José Bonifácio. Chegamos ao número 70. Eram oito horas da noite. Na varanda, uma senhora magra, de cabelos curtos, nos esperava, andando nervosa. Um relâmpago iluminou a memória - ERA A ZUZUCA! Todos nos emocionamos. É evidente que ela não nos identificou. Foi gentil, dizendo que que do Horta guardava uma vaga lembrança. Tinha de ser do Horta!. Generosa mentira mineira! Nos arquivos da memória, o confronto era uma covardia: de um lado uma Esquadrilha inteira, a a bilheteira do cinema Apollo, sozinha, do outro. As lembranças dos Anos Dourados vieram rápidas, ricas de recordações:
- Cadê a Carminha? O que você fez da vida?
- Até agora não fiz nada. A Carminha enviuvou; já tem um casal de netos de olhinhos amendoados. A filha casou com um japonês e mora em Tóquio. Vocês se lembram da Verinha, a minha irmã caçula? Olha ela aí, também já é avó.
Ninguém se lembrava da Verinha que, em 1957 tinha 12 anos e ainda não frequentava o "footing".
- Vocês são da turma do Rony Von?
- Qual Rony Von qual nada! Nós somos da turma do Cardoso, do Sucupira, do Gatti e de outros cento e tantos.
- Não tô lembrada desses nomes. Quando vocês me conheceram, eu morava naquela casa que tinha um bambual nos fundos?
- Do bambual a gente não se lembra. Lembramos do seu pai, que era Cabo da PM.
- Sargento! Eu vivo da pensão que ele me deixou.
- Quanto tempo você trabalhou como bilheteira do Cine Apollo?
- Onze anos... Tempo bom; eu via todos os filmes. Agora não vou mais ao cinema. Vou fazer café prá vocês!
- Não se incomode, Zuzuca, já é noite. Temos de encontrar os outros colegas.
- Mas eu quero que vocês tomem um café na minha casa!
- Tá bem, amanhã a gente volta e traz outros companheiros para tomar café.
- Voltam mesmo? Então tá bem. Quantos virão amanhã?
- Só Deus sabe...

Era pouco mais de dez horas daquele sábado, 7 de março de 1998, quando voltamos, levando rosas. Ela ainda não estava pronta. Esperamos na varanda, equipados com máquina fotográfica e gravador de fita. Ela chegou vestida com simplicidade, mas arrumadinha.
- Gente, vocês não sabem essa noite eu nem dormi, de tanta emoção!
- Zuzuca, você gravaria uma mensagem para a Turma de 57 ouvir na reunião da próxima terça-feira?
- Uai, a Turma vai se reunir aqui na terça-feira?
- Aqui não, Zuzuca, no Rio!
- Tá bom, eu gravo. Mas que é que eu vou dizer?
- Comece dizendo seu verdadeiro nome, que ninguém conhece. Gravando!
- Eu me chamo Maria José de Melo. A Turma de 57 me conhece muito bem! Eu sou a Zuzuca! Trabalhei no cinema Apollo durante muitos anos. Conheci a Turma de 57 toda. Tenho saudade daquele tempo, e agora retornamos para lembrar o passado. Foi uma Turma muito legal. Foi uma das melhores Turmas que passaram por Barbacena, a de 57. Tem também a minha irmã, Carminha, que conheceu vários da Turma de 57. Tenho saudades de todos eles; inclusive desses que vieram em 98 e se encontram em minha casa. Descobriram-me aqui em casa
- Por quê os cadetes iam ao Cine Apollo?
- Iam prá ver a sessão. Eu conversava com todos; tratava todos muito bem. Gostava da Turma, mesmo! Três vieram em minha casa: o Neves, o Luís Mauro e o Horta. Fiquei muito feliz!
- E você, o que faz na vida?
- Não fiz nada, até agora. Sou titia.
- Não quis casar com um cadete, por quê?
- Não deu, né?
- Eram feios os cadetes?
- Nãooo!!! Não merecia eles não! Todos eles. A Turma de 57 era... Não posso dizer nada da Escola não, porque todos foram muito meus amigos. Mas a Turma de 57 me deixou saudades...
- Você ia às festas, lá?
- Ia! Não perdia uma festa na Escola. Os bailes: Aniversário da Escola, que foi em maio; Festa Junina; em outubro, 23, a Semana da Asa; e o baile do final de ano, da Formatura. Eu ia muito aos bailes. Do Jardim de Alá é que eu gostava muito, né? Me deixou saudade... Ô Turma, viu? Eu gostaria de ver todos eles, mas... A Turma de 57 vai se reunir? Eu gostaria que você dess um abraço em todos por mim. Fala que é a Zuzuca. E quando vierem em Barbacena, a minha casa está à disposição de todos vocês. Me trouxe uma alegria muito grande... do passado, né? Fiquei feliz! Fiquei até emocionada com a chegada sua aqui, viu? Então pretendo que você, o Mauro e o Horta voltem aqui outra vez. Ah!, não tô falando muito bem não, porque tô até sem graça de falar. Tô, porque faz tanto tempo que a gente não se vê. Quantos anos passados?
- Quarenta e um.
- Quarenta e um anos! É muita coisa, né? Mas tornamos a nos encontrar, né? Estamos na luta, continuo na luta. Um abraço prá todos. Prá você, viu, e todos os seus colegas da Turma de 57. Um abração e um beijão!
- De quem?
- Da Zuzuca!

Al. 57-15 Neves

Nota do webmaster: A nossa querida ZUZUCA, MARIA JOSÉ DE MELO, nos deixou no ano de 2009. Guardamos dela a saudade de uma moça simples, que prestigiava as todas as nossas festas e sempre nos tratava com carinho e atenção. Era impossível comprar uma entrada no cinema Apolo sem um diálogo carinhoso e amistoso com ela.




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